sábado, 18 de junho de 2011

Resíduos hospitalares



314 Cad. Saúde Públ., Rio de Janeiro, 11 (2): 314-320, abr/jun, 1995
Ferreira, J. A. OPINIÃO / OPINION
INTRODUÇÃO
A nossa civilização chega ao limiar do século
XXI como a civilização dos resíduos, marcada
pelo desperdício e pelas contradições de
um desenvolvimento industrial e tecnológico
sem precedentes na história da humanidade,
enquanto populações inteiras são mantidas à
margem, não só dos benefícios de tal desenvolvimento,
mas das condições mínimas de
subsistência.
Ao mesmo tempo em que utilizamos os recursos
da biosfera como se fossem inexauríveis,
todos os dias lançamos à natureza o desafio
de ter que assimilar novos produtos artificiais,
desconhecidos dos agentes naturais,
incapazes, portanto, de promover o controle
de seus usos e riscos, ultrapassando os limites
da capacidade dos ciclos naturais e dos
fluxos de energia.
A unificação dos habitantes da Terra pela
globalização dos efeitos no meio ambiente e a
constatação tecnocientífica da possibilidade
de responsabilizar-se pelo fim da humanidade,
colocam o homem moderno frente à questão
central da vida.
Resíduos Sólidos e Lixo Hospitalar: Uma Discussão Ética
Solid Waste and Nosocomial Waste: An Ethical Discussion
João Alberto Ferreira1
FERREIRA, J. A. Solid Waste and Nosocomial Waste: An Ethical Discussion. Cad. Saúde Públ.,
Rio de Janeiro, 11 (2): 314-320, Apr/Jun, 1995.
This paper deals with issues pertaining to solid waste. It discusses problems resulting from both
the life style of modern civilization and relationships between the First and Third Worlds, as well
as prospects for the environment if a new ethic of solidarity among human beings and respect for
life is not established Beginning with this overview, the article deals with specific issues of
hospital waste and the interference and impositions of First-World “culture” in the systems for
handling, processing, and disposing of hospital waste in Brazil. The article concludes by
analyzing whether or not such nosocomial waste should be considered hazardous.
Key words: Environment; Solid Waste; Hospital Waste
“Donde a centralidade nos dias que correm
da questão ética”; uma vez “que o maior ou
menor equilíbrio das forças materiais das
quais emergimos como espécie, depende
diretamente do nosso agir e, por
conseguinte, das nossas escolhas e decisões”
(Barbosa, 1992: 03).
Embora existam evidências de uma tomada de
consciência dos problemas ambientais, os movimentos
mundiais de proteção da natureza e do
meio ambiente têm uma atuação descoordenada
e confusa e sofrem a interferência do sistema
político-econômico-capitalista dominante, cuja
hegemonia extrapola os limites do mundo ocidental
e começa a alcançar o mundo todo.
Esta “consciência parcial das questões do meio
ambiente tem-se dado apenas dentro de uma perspectiva
tecnocrática e, na realidade, o esclarecimento
de tais questões depende de uma articulação
ético-política entre três registros ecológicos
– o meio ambiente, as relações sociais e a subjetividade
humana” (Guattari, 1989). Ou seja, um devir
com uma nova ordem social em que o homem
se integre ao meio ambiente e as relações sociais
se estabeleçam numa perspectiva de maior equilíbrio
(a questão ética) e a subjetividade humana
seja estruturada para formas de atuações mais
criativas. “A questão ecológica é essencialmente
um problema ético” (Schramm, 1992).
1 Companhia Municipal de Limpeza Urbana. Rua
Major Ávila, 358, Rio de Janeiro, RJ, 205111-140,
Brasil.
315
Resíduos Sólidos
Cad. Saúde Públ., Rio de Janeiro, 11 (2): 314-320, abr/jun, 1995
Não é possível discutir-se a crise ética sem
considerar a dualidade perversa do mundo atual,
dividido em países de Primeiro Mundo e Países
de Terceiro Mundo. É nos países pobres do
Terceiro Mundo que, como diz Carneiro Leão
(1992), está materializada a “principal diferença
frente ao mundo desenvolvido”, a “miséria radical,
uma miséria que está fora de toda e qualquer
possibilidade de escolha”.
“Estamos numa crise ética porque a nossa
História se encontra dentro de um processo
de reformulação de seus princípios de base
(...) mas, para nós, essa crise da ética se
insere dentro do contexto das provocações,
dos desafios, das necessidades do chamado
país subdesenvolvido, país do Terceiro
Mundo ou América Latina”
(Carneiro Leão, 1992: 217)
As modificações comportamentais e a nova
ordem social à luz de uma ética de preservação da
humanidade, dependem, sobretudo, da mudança
no consumo dos países desenvolvidos. Por outro
lado, dependem também da compreensão correta
das questões do ambiente e da vida pelos
países pobres, que passariam a agir no sentido de
um desenvolvimento dentro das limitações e das
necessidades da sua própria realidade.
Há que desenvolver formas de se contrapor
às ações dos países desenvolvidos que atuam
na direção da exportação, para os países periféricos,
de um padrão de vida inacessível para a
maioria absoluta da população, que transferem
resíduos perigosos maquiados em matéria-prima
e industrias de tecnologia suja que, além de aumentar
a rentabilidade dos investimentos, mantêm
ativa, no Primeiro Mundo, uma indústria de
processos, produtos e equipamentos de controle
de poluição, que de outro modo já estariam
obsoletos. “A ecologia sem desenvolvimento
repartido, é a face do pensamento inigualitário
que organiza um novo modo de exploração
do mundo pobre” (Paraire, 1992: 11).
“Há que se pensar um modo de realização
da comunidade humana do Terceiro Mundo
diferente do modelo desenvolvimentista estabelecido
de acordo com os parâmetros, os paradigmas
das nações industrializadas” (Carneiro
Leão, 1992)
Tecnologias de uso intensivo de mão-deobra,
aumento da produção de alimentos, água
potável, esgotamento sanitário, educação,
atendimento primário da saúde extensivo a
toda a população, são parâmetros que devem
referenciar o modelo de desenvolvimento do
Terceiro Mundo.
Schramm (1992: 238), aponta “indícios preocupantes
sobre a questão ética nos modos de
agir do Norte (países centrais) e a ampliação
do fosso entre riqueza e pobreza de seres e
nações”. Os recentes movimentos sociais na
América Latina sinalizam a urgência de uma
nova ética. “Talvez o traço mais marcante da
civilização moderna tenha sido a idéia de que
o ser humano é tão mais humano quanto mais
ele domina a natureza e os outros homens”
(Unger, 1991: 48).
Nos rastros desta forma de existir, estão os
volumes cada vez maiores e mais visíveis dos
seus restos, resíduos que denunciam uma
civilização que se percebe como centro ontológico
do universo e que, por isso mesmo, julga
poder manipular o planeta como se dele não
fizesse parte.
OS RESÍDUOS SÓLIDOS
Estima-se que nos Estados Unidos sejam
produzidos cerca de 800 mil t/dia (1992) dos chamados
resíduos domiciliares. No Brasil, a produção
de resíduos domiciliares é da ordem de
100 mil t/dia (1992). Os municípios do Rio de
Janeiro e São Paulo geram cerca de 6.000 t/dia e
11.500 t/dia (1992) respectivamente. A produção
mundial é estimada entre um e dois bilhões
de toneladas de resíduos por ano.
No Brasil, não se dispõem de dados precisos
sobre a produção e qualidade da maior parte dos
resíduos sólidos. O que se sabe, pela constatação
da presença de resíduos de forma indiscriminada
no ambiente, além daqueles dispostos em sistemas
sob controle, é que as quantidades são elevadas
e os problemas decorrentes, bastante graves.
A reflexão sobre resíduos, conduz à percepção
da existência de tecnologia e políticas
originárias dos países desenvolvidos.
Nos últimos anos, assistimos à implementação
dos recipientes descartáveis – latas, vidros,
e embalagens plásticas – na América Latina, que
aumentam o consumo de energia, inundam o
316 Cad. Saúde Públ., Rio de Janeiro, 11 (2): 314-320, abr/jun, 1995
Ferreira, J. A.
ambiente com material não-passível de decomposição
biológica e convergem com a estratégia
da propaganda, na formação de uma cultura consumista.
Esta implementação oculta uma estratégia
de mais de dez anos das principais indústrias
de embalagens no país (e na América Latina)
e dos seus principais clientes, que vêm subsidiando
programas “ambientalistas” de reciclagem
daquelas embalagens.
As embalagens descartáveis só foram possíveis
(e seu crescimento depende disso), a partir
da reciclagem de uma parcela significativa das
mesmas, pela não-disponibilidade de matériaprima
(e/ou viabilidade econômica) após ser atingido
um certo estágio de produção – principalmente
sílica e alumínio. Ou seja a ação dos ambientalistas
alimenta a “helicóide” da produção das
embalagens descartáveis, e do consumo. As projeções
falam em triplicar as 60 milhões de latas
fabricadas por mês (1993) no Brasil, até 1995.
A produção de 15 latas de cerveja consome,
aproximadamente, o equivalente em energia a
um litro de gasolina. “A quantidade de energia
elétrica consumida a cada ano nos Estados
Unidos para a fabricação destes recipientes de
bebida, mesmo contando-se aquelas latas recicladas,
seria suficiente para suprir as necessidades
elétricas de uma cidade como Curitiba”
(D’Avignon, 1993: 26).
O uso intensivo de energia para a produção
de alumínio repercute na sociedade como um
todo, que deve (deveria) então, a nosso ver, ser
destinado a fins mais nobres, do que à produção
de latas de bebidas.
A promoção da principal produtora de latas
no país, premiando os esforços dos alunos de
escolas primárias na obtenção de quantidades
de “matéria-prima” para reciclagem é um exemplo
dessa estratégia. Que falem os educadores:
o programa trabalha a subjetividade da criança
em direção a uma atitude ambientalista ou reforça
a vocação consumista?
“Enquanto as sociedades industrializadas
dispensam paulatinamente todo e qualquer
ordenamento cultural que não esteja a
serviço da voracidade de seu crescimento, de
seu desenvolvimento e de seu progresso, aos
poucos vão sendo aniquiladas as fisionomias
originais da convivência humana” (Carneiro
Leão, 1992: 224)
O volume de recursos necessários ao gerenciamento
dos resíduos sólidos é de grande proporção.
Apesar disso, o que se vê é o planejamento
de soluções técnicas de custos elevados
e uma omissão de informações fundamentais,
que levam a distorções e inadequações
gritantes. Cidades que adquirem veículos
compactadores cuja manutenção é inacessível e
onde as ruas não permitem o tráfego dos mesmos;
implantação de usinas de reciclagem e
compostagem que se revelam onerosas
operacionalmente e que não resolvem o problema
da destinação final dos resíduos, terminando
por serem fechadas.
O programa de despoluição da Baía de Guanabara,
no Rio de Janeiro, confirma esta tendência
ao priorizar, como destino final dos resíduos
sólidos nos municípios envolvidos, usinas de
reciclagem e compostagem e incineradores para
resíduos hospitalares.
A relação de custos para sistemas de destinação
final de resíduos é, de forma geral, bastante
favorável a aterros sanitários que, se projetados
e operados corretamente, não interferem
com o meio ambiente e seguramente são mais
adequados às condições do Terceiro Mundo.
A questão da destinação final dos resíduos
traz consigo a polêmica sobre a classificação de
resíduos e a determinação do potencial de risco
que possam apresentar para o meio ambiente.
A classificação de resíduos é uma atividade
complexa e, em muitos casos, ainda indefinida
mesmo nos países desenvolvidos. Quanto mais
perigoso é considerado o resíduo, maiores os
cuidados necessários e, como conseqüência,
maiores os custos envolvidos.
As instituições de controle e proteção do
meio ambiente, adotam, em geral, o critério de
considerar o resíduo como perigoso em caso
de dúvida. Nada contra esse princípio, face às
dificuldades de classificação de resíduos. Contudo,
o enquadramento equivocado de um resíduo
na categoria perigoso, pode trazer como
conseqüência custos elevados para o seu
gerenciamento, com a utilização de recursos
que, numa sociedade onde os mesmos são escassos
e as prioridades muitas, poderiam ser
melhor aproveitados.
Não se pode, em qualquer circunstância, esquecer
os 30 milhões de brasileiros, miseráveis
radicais, no agir técnico, político e social.
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Resíduos Sólidos
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LIXO HOSPITALAR
Vamos fazer um recorte no universo dos resíduos,
para abonos a questão dos resíduos hospitalares.
São os resíduos produzidos em unidades
de saúde, constituídos de lixo comum (papel,
restos de jardim, restos de comida de refeitórios
e cozinhas etc), resíduos infectantes ou
de risco biológico (sangue, gaze, curativos, agulhas
etc) e resíduos especiais (químicos, farmacêuticos
e radioativos).
Há, no Brasil, mais de 30 mil unidades de saúde,
produzindo resíduos e, na maioria das cidades,
a questão da destinação final dos resíduos
urbanos não está resolvida. Predominam os vazadouros
a céu aberto.
Da mesma forma que para os resíduos sólidos
em geral, as propostas de gerenciamento
para os resíduos hospitalares tem-se fundamentado
em padrões do Primeiro Mundo.
A questão central que se coloca é sobre a
periculosidade ou não dos resíduos hospitalares.
Embora esta seja uma questão não-resolvida,
os países desenvolvidos adotam uma política
cautelosa e consideram tais resíduos como resíduos
que exigem tratamento especial (perigosos,
patogênicos, patológicos, entre outras denominações).
A recomendação de incineração dos
resíduos, ou de parte deles, é uma constante.
Uma pesquisa realizada em 1986 nos Estados
Unidos revelou que, embora em apenas cinco
estados os medical wastes fossem considerados
perigosos, do ponto de vista legal, em todos os
estados a autoclavagem ou a incineração eram
recomendadas ou obrigatórias.
No Brasil os resíduos hospitalares estão ainda
pouco estudados.
Dois documentos: “Management of Waste
from Hospitals – WHO” (1983) e “EPA Guide for
Infections Waste Management(1986), serviram
de referência básica para a maior parte dos trabalhos
elaborados no Brasil, com vistas ao gerenciamento
dos resíduos hospitalares. Esta influência
é nítida nos documentos que se seguem,
onde os resíduos hospitalares ou parte deles são
considerados perigosos.
• “Subsídios para Organização de Sistemas
de Resíduos em Serviços de Saúde
– Centro de Vigilância Sanitária –
Suds – SP” (1989).
• “Normas da Associação Brasileira de Normas
Técnicas: NBR-10004; NBR-12807;
NBR-12808; NBR-12809; NBR-12810”.
• “Legislação de vários municípios, estabelecendo
a incineração dos resíduos
hospitalares: Rio de Janeiro, São Paulo,
Belo Horizonte, Porto Alegre, entre outros”
(1989).
• “Portaria no 063 de 1979 do Ministério do
Interior, tratando da obrigatoriedade da
incineração dos resíduos hospitalares
(em 1991 o Conama desobrigou a incineração
do lixo hospitalar)”.
A inadequação de tal enfoque, verifica-se na
prática, com a quase total ausência de incineradores
para lixo hospitalar instalados e/ou em operação
no Brasil, e no pequeno número de unidades
de saúde que manuseiam seus resíduos dentro
de padrões considerados satisfatórios.
Avaliação feita em sete hospitais de Campo
Grande – Mato Grosso do Sul, concluiu: “os sistemas
de manipulação dos resíduos hospitalares
continuam negligenciados e tão precários
como há décadas atrás” (Moraes, 1988: 39).
Parte dos resíduos eram incinerados a céu
aberto e o restante era disposto no aterro de lixo
do município.
Em Florianópolis “a maioria absoluta dos
hospitais não tem normas adequadas de manuseio
interno dos resíduos hospitalares. Como
regra geral as unidades hospitalares desconhecem
o volume e a qualidade dos resíduos que
produzem e o destino dado aos mesmos” (Pinheiro,
1993: 36).
Recentemente, os jornais noticiaram sobre
catadores, comendo carne humana de resíduos
hospitalares dispostos inadequadamente em
vazadouro a céu aberto, em Pernambuco.
A escassez de recursos para o setor de saúde
e a dificuldade dos hospitais em implementar sistemas
de manuseio dos resíduos, exigem das
comunidades técnocientífica e política (?), repensar
a questão.
Em alguns municípios, dos quais São Paulo e
Rio de Janeiro são dois exemplos maiores, a adoção
de usinas de reciclagem e compostagem para
tratamento e destino do lixo urbano e a dúvida
sobre a periculosidade dos resíduos hospitalares,
levaram à implementação de sistemas diferenciados
específicos para sua coleta, com ele318
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Ferreira, J. A.
vação dos custos operacionais, e a utilização de
outro destino para os mesmos (até o presente,
em aterros). Já se discute, ainda que em âmbito
limitado, a instalação de incineradores centrais
para resíduos hospitalares.
Usinas de incineração têm custos estratosféricos
para os orçamentos públicos terceiromundistas.
Apesar disso, Porto Alegre, Curitiba,
Americana, Guarulhos, entre outras, estudam
(1992) a incineração dos resíduos hospitalares.
E o meio ambiente? Não pretendemos reduzir
sua importância, pelo contrário, consideramos
que a oportunidade que temos nos países subdesenvolvidos,
de não perder a corrida contra o
meio ambiente (o homem como integrante do
mesmo), reside em não reproduzirmos os modelos
vigentes nos países desenvolvidos.
Na parte final deste trabalho vamos alimentar
a polêmica sobre a periculosidade ou não dos
resíduos hospitalares.
A PERICULOSIDADE
Os resíduos hospitalares, comparados aos
domiciliares, são mais, menos ou igualmente perigosos?
A literatura sobre o assunto tende a minimizar
a periculosidade, mais especificamente, a
condição infecciosa dos resíduos hospitalares.
Nos Estados Unidos, até 1986 a EPA “afirmava
que não existia definição universalmente
aceita para resíduos infecciosos”.
Além disso a EPA “ainda não estabeleceu
regulamentação para gerenciamento de resíduos
infecciosos, que teria efeito de lei, nem
trouxe a público qualquer evidência de que
haveria de fato uma relação entre o gerenciamento
ou o mau gerenciamento de resíduos
hospitalares infecciosos e doenças infecciosas
produzidas na população que tenha estado em
contato com tais resíduos” (Dugan, 1992: 348).
A preocupação da população com os resíduos
hospitalares tem aumentado principalmente após
o advento da AIDS. “Entretanto, existem ainda
dúvidas na compreensão dos modos de transmissão
dos agentes associados a doenças originárias
do sangue” (Li & Jenq, 1993: 145).
“A maioria, se não todos os receios do
público sobre os riscos de infecção por
resíduos de serviços de saúde (agulhas são
uma exceção), considerados diferentes do
lixo domiciliar, antes e depois da disposição,
têm pouca base científica”
(Collins & Kenedy, 1992: 05)
Na conclusão de um artigo sobre tratamento
de resíduos hospitalares Plassais (1993) indaga:
“mas este tipo de resíduo gera algum risco epidemiológico
para a população”?
No Relatório Preliminar sobre Gerenciamento
de Resíduos Hospitalares nos Estados Unidos,
enviado ao Congresso em 1990, a EPA “reconhecia
que, a maioria dos especialistas na área,
eram de opinião de que os mesmos não apresentam
riscos à população, mesmo quando são
mal gerenciados ou impropriamente dispostos”
(Dugan, 1992: 349).
“Entre os trabalhadores que atuam na
limpeza e remoção dos resíduos hospitalares,
a preocupação com AIDS e Hepatite B
transmitidas pelos resíduos aumentou
consideravelmente, embora não exista
comprovação epidemiológica de tal
transmissão” (Turnberg & Frost, 1990: 1262)
“A percepção pública dos riscos associados
aos resíduos hospitalares, gerou a
promulgação de legislação baseada mais em
histeria e motivação política que em fatos
científicos” (Keene, 1991: 682)
A legislação de vários países, de certo modo,
confirma essa abordagem.
O “Guide Sur L’elimination des Déchets Hospitaliers”
do Ministério da Solidariedade, da Saúde e
da Proteção Social da França, classifica os resíduos
de cirurgias, de laboratórios de anatomopatologia,
de bacteriologia, de virologia, de bioquímica e
de unidades de isolamento, como resíduos de risco.
Como método de disposição de tais resíduos, o
Guide autoriza apenas a incineração.
No Japão, a segregação dos resíduos infecciosos
é estabelecida na legislação, bem como a
esterilização em incineradores (ou em autoclaves)
antes de serem dispostos no solo.
O Manual de Planejamento para resíduos dos
serviços de saúde elaborado pela “Federation
of Swedish County Councils” (1993), considera
que o risco de infecção é pequeno se os resíduos
são manuseados corretamente.
319
Resíduos Sólidos
Cad. Saúde Públ., Rio de Janeiro, 11 (2): 314-320, abr/jun, 1995
Estabelece ainda que os resíduos infecciosos
devem ser segregados na fonte e aponta
como o mais apropriado método de processar
resíduos infecciosos, a incineração.
A Norma Brasileira NBR-12809 sobre Manuseio
de Resíduos de Serviços de Saúde estabelece
a segregação dos resíduos infectantes.
Alguns autores tratam da relação entre resíduos
domiciliares e resíduos de serviços de saúde.
Referindo-se a resíduos, contendo sangue e
que podem ser associados a AIDS e Hepatites,
Collins & Kenedy (1992:01) afirma que “as unidades
de saúde não são as únicas fontes de tais
materiais. Grande número de fraldas descartáveis
e papel higiênico são descartados como resíduos
domiciliares”.
Em 1991, Fedorak & Rogers observaram que
os “resíduos domiciliares podem contribuir com
grandes quantidades de microorganismos originados
de lenços de papel, papel higiênico, fezes
de animais domésticos, fraldas descartáveis e
de restos de comida”.
Nos Estados Unidos, aproximadamente 196
da fração seca dos resíduos municipais são de
fraldas descartáveis, que geram uma concentração
de fezes nos resíduos de cerca de 0,5 Kg
por tonelada de resíduo.
Embora a principal discussão se de sobre os
resíduos infecciosos, também os resíduos químicos
devem ser considerados quanto ao aspecto
dos riscos para a saúde humana e para o
meio ambiente. Ácidos, solventes, formaldeído,
remédios e outros materiais perigosos podem ser
encontrados tanto nos resíduos hospitalares,
quanto nos domiciliares.
Savage & Sharpe (1987) investigaram uma
amostra de resíduos municipais em King County,
USA, para avaliar a presença de resíduos
potencialmente perigosos. Os resultados estão
no Quadro 1.
Uma investigação no lixo do Rio de Janeiro,
por exemplo, certamente revelaria a presença de
todos estes itens, não necessariamente nas mesmas
proporções.
QUADRO 1. Resíduos Perigosos em Resíduos Municipais (t/ano)
Produtos
de
Limpeza Solventes Tintas Óleos Ácidos Pesticidas Mercúrio
Remédios
e
Cosméticos
438,9 974,9 3165,8 617,8 25,2 114,3 1,8 49,3
Concluindo, queremos reafirmar a convicção
de que precisamos de soluções técnicas para
nossos problemas, dentro da racionalidade de
nossas necessidades e possibilidades. Um primeiro
passo será ampliarmos os conhecimentos
sobre os resíduos em geral e os hospitalares em
particular, para então desenvolvermos, com mais
segurança, uma proposta de gerenciamento adequada
à nossa realidade.
“A inadaptação das análises da ecologia
moderna à dimensão do problema ecológico
é grave. Mais, ela é a prova de uma certa
obstinação: a recusa de examinar a crise
ecológica como uma totalidade de
síndromes notáveis num ambiente fechado, a
recusa de considerar a responsabilidade de
más (o grifo é nosso) escolhas tecnológicas,
impostas por uma civilização específica a
outros povos, servindo-se do argumento
irreplicável da universalidade dos
problemas e da unicidade da raça humana”
(Paraire, 1992: 17)
AGRADECIMENTOS
O autor agradece a Dr. Fermin Roland
Schramm, Dr. Wilmar Barbosa e Miriam Langenbach,
os comentários e críticas ao texto inicial
e a Dra. Ana Maria Tambellini pela revisão
final do texto.
320 Cad. Saúde Públ., Rio de Janeiro, 11 (2): 314-320, abr/jun, 1995
Ferreira, J. A.
RESUMO
FERREIRA, J. A. Resíduos Sólidos e Lixo
Hospitalar: Uma Discussão Ética. Cad. Saúde
Públ., Rio de Janeiro, 11 (2): 314-320,
abr/jun, 1995.
O presente artigo trata da questão dos
resíduos sólidos, discutindo os problemas
decorrentes de um modo de ser e de agir,
resultante das relações entre Primeiro Mundo e
Terceiro Mundo e as perspectivas para o meio
ambiente se não ocorrer uma ética renovada de
solidariedade entre seres humanos e de
respeito à vida. A partir dessa visão mais geral,
o artigo trata, então, das questões específicas
dos resíduos hospitalares, as interferências e
imposições da “cultura” de Primeiro Mundo
nos sistemas de manuseio, tratamento e
disposição dos resíduos, no Brasil,
procurando problematizar a questão da
periculosidade (ou não) de tais resíduos.
Palavras-Chave: Meio Ambiente; Resíduos
Sólidos; Resíduos Hospitalares
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